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Um forte desaparecido do século XVI existente na foz do rio Paraiba, na ilha da Restinga em Cabedelo-PB, torna-se o ponto de partida de minha busca residual e poética de seus vestígios. Mesmo que sendo uma tentativa impossível pela essência “tempo”, mesmo que uma viagem que me frustre, percorro um caminho de muitas voltas, me debruçando em encontrar o ser quando.
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QUANDO
Vivemos numa época em que a arte se tornou um assunto público. Isto não quer dizer o fim da era dos museus, claro, mas a arte contemporânea, adotada por boa parte dos jovens artistas, foi encontrar no espaço público uma melhor forma de comunicar, de fazer pensar e de provocar nas pessoas algum tipo de reação. Algo que o museu – pelo menos o museu tipo “mausoléu” –, já não faz há tempos. E, mais: o artista contemporâneo não busca “vender” um produto, aliás, quer mesmo é veicular, tornar algo público.
A produção do artista Manoel Fernandes já surgiu como arte pública. Desde seus primeiros trabalhos, há cinco ou seis anos, o interesse por questões relacionadas à memória e à ausência (ou a acumulação) tem sido a marca de sua trajetória. Numa de suas primeiras obras, investiu em informações – o lixo nas calçadas demarcado com linhas como fazem os peritos criminais – que deixavam de existir para aí sobressair outra informação: a fotografia do lugar, no dia seguinte, após o recolhimento do lixo. Mais que a paisagem urbana em mutação, a ação se referia à autenticação de um fato, e não de seu registro.
E, para a constatação de que algo que não vemos existiu realmente, Fernandes, empreendeu uma “expedição”, com os artistas Mário Simões e Roncalli Dantas, à Ilha da Restinga, na Foz do Rio Paraíba, em busca de resquícios de um fortim, em madeira, construído no século XVI pelos portugueses, e que, segundo relato de Maurício de Nassau, “foi destruído e substituído no mesmo lugar por um bom reduto com meios-baluartes, tendo uma bela bateria na cortina que dá para o lado do canal do rio, por onde os navios devem passar. Este lugar é tão forte como nenhum outro no Brasil; está quase a um tiro de colubrina da ilha, e é cercado d’água.” Fernandes não encontrou nenhum vestígio do forte, claro, mas, restou-lhe a lembrança, a memória.
O resultado desta inquietação está na mostra, Quando, sua primeira individual, na Aliança Francesa João Pessoa, em que, mais uma vez, utiliza a linha como marca do percurso de sua criação. Manoel “surpreende pela força poética das linhas, em vários momentos, emaranhadas como garatujas soltas sobre o vazio, denunciando o persistente esforço do artista de tratar de questões residuais. Desta vez, da sua própria melancolia de certa natureza que oscila ao olhar. E, ainda, quebra a solenidade proposta por desenhos silenciosos ao instalar, entre as paisagens mínimas esboçadas sobre os papéis, folhagens artificiais encontradas na decoração de muitos lares brasileiros. É ironia concentrada”, diz Mário Simões, artista e doutorando em literatura e cultura pela UFPB.
Talvez os desenhos-garatujas e as plantas de plástico de Fernandes não sejam relacionados a uma paisagem (o forte? a ilha?), mas, certamente, “a força misteriosa do pronome-título”, surja como pista para o expectador.
Dyógenes Chaves
Curador e crítico de arte da ABCA/AICA
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Melancolia de uma certa natureza
Mário Simões *
Após participar de vários salões pelo país com uma obra premiada, Manoel Fernandes apresenta um novo trabalho ao público de João Pessoa. Mais uma vez, a linha marca o percurso de sua criação. Em sua primeira exposição individual, Quando, o artista quebra a solenidade proposta por desenhos silenciosos ao instalar, entre as paisagens mínimas esboçadas sobre os papéis, folhagens artificiais encontradas na decoração de muitos lares brasileiros. Ironia concentrada. Surpreende pela força poética das linhas, em vários momentos, emaranhadas como garatujas soltas sobre o vazio, denunciando o persistente esforço do artista de tratar de questões residuais. Desta vez, da sua própria melancolia de uma certa natureza que oscila ao olhar. O diálogo entre o público e o privado permanecem na sua nova obra. Desenhos, garatujas e o prosaico se encontram com a força misteriosa do pronome-título, posto como pista para o expectador.
* Mário Simões é artista e doutorando em literatura e cultura pela UFPB







