Quando Manoel Fernandes Desenhos e objetos De 25 setembro a 23 outubro 2009 Aliança Francesa Rua Bento da Gama, 396 Torre João Pessoa, PB www.afjoaopessoa.com.br / 3222 6565 Visitação: De segunda a sexta: 8h00 às 12h30 e 13h30 às 19h30 Sábado: 8h00 às 12h00 e 13h30 as 16h30


Texto do Curador
28/09/2009, 23:56
Filed under: TEXTO DO CURADOR

QUANDO

Vivemos numa época em que a arte se tornou um assunto público. Isto não quer dizer o fim da era dos museus, claro, mas a arte contemporânea, adotada por boa parte dos jovens artistas, foi encontrar no espaço público uma melhor forma de comunicar, de fazer pensar e de provocar nas pessoas algum tipo de reação. Algo que o museu – pelo menos o museu tipo “mausoléu” –, já não faz há tempos. E, mais: o artista contemporâneo não busca “vender” um produto, aliás, quer mesmo é veicular, tornar algo público.

A produção do artista Manoel Fernandes já surgiu como arte pública. Desde seus primeiros trabalhos, há cinco ou seis anos, o interesse por questões relacionadas à memória e à ausência (ou a acumulação) tem sido a marca de sua trajetória. Numa de suas primeiras obras, investiu em informações – o lixo nas calçadas demarcado com linhas como fazem os peritos criminais – que deixavam de existir para aí sobressair outra informação: a fotografia do lugar, no dia seguinte, após o recolhimento do lixo. Mais que a paisagem urbana em mutação, a ação se referia à autenticação de um fato, e não de seu registro.

E, para a constatação de que algo que não vemos existiu realmente, Fernandes, empreendeu uma “expedição”, com os artistas Mário Simões e Roncalli Dantas, à Ilha da Restinga, na Foz do Rio Paraíba, em busca de resquícios de um fortim, em madeira, construído no século XVI pelos portugueses, e que, segundo relato de Maurício de Nassau, “foi destruído e substituído no mesmo lugar por um bom reduto com meios-baluartes, tendo uma bela bateria na cortina que dá para o lado do canal do rio, por onde os navios devem passar. Este lugar é tão forte como nenhum outro no Brasil; está quase a um tiro de colubrina da ilha, e é cercado d’água.” Fernandes não encontrou nenhum vestígio do forte, claro, mas, restou-lhe a lembrança, a memória.

O resultado desta inquietação está na mostra, Quando, sua primeira individual, na Aliança Francesa João Pessoa, em que, mais uma vez, utiliza a linha como marca do percurso de sua criação. Manoel “surpreende pela força poética das linhas, em vários momentos, emaranhadas como garatujas soltas sobre o vazio, denunciando o persistente esforço do artista de tratar de questões residuais. Desta vez, da sua própria melancolia de certa natureza que oscila ao olhar. E, ainda, quebra a solenidade proposta por desenhos silenciosos ao instalar, entre as paisagens mínimas esboçadas sobre os papéis, folhagens artificiais encontradas na decoração de muitos lares brasileiros. É ironia concentrada”, diz Mário Simões, artista e doutorando em literatura e cultura pela UFPB.

Talvez os desenhos-garatujas e as plantas de plástico de Fernandes não sejam relacionados a uma paisagem (o forte? a ilha?), mas, certamente, “a força misteriosa do pronome-título”, surja como pista para o expectador.

Dyógenes Chaves
Curador e crítico de arte da ABCA/AICA


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